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Revista Época divulga acusações de pagamento de propina contra Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves
Postado Por : digo-provo
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Escrito por Thalita
em 28 janeiro, 2013
na categoria Brasil and Política
Neste domingo 27, a Revista Época
divulgou matéria pesada contra o deputado federal candidato à
presidência da câmara, Henrique Alves (PMDB) e senador, candidato à
presidência do senado Renan Calheiros. A Polícia Federal acusa homens de
confiança dos prováveis presidentes do Senado e da Câmara de receber
propina e traficar influência em benefício de um empreiteiro.
Confira reportagem da Revista:
As provas constituem-se de
interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, relatórios de
vigilância dos assessores de Renan e Henrique Alves, recibos bancários,
anotações em agenda – e até uma contabilidade de caixa dois, preparada
pelo tesoureiro de Zuleido. Entre a miríade de episódios de corrupção,
conta-se aqui o que envolveu a construção da barragem Duas Bocas/Santa
Luzia, no Rio Pratagy, em Alagoas, para ampliar o abastecimento da
região metropolitana de Maceió. A busca de Zuleido para liberar dinheiro
para a obra mobilizou tanto Renan quanto assessores de Henrique Alves.
Era uma obra de R$ 77 milhões que, depois de receber R$ 30 milhões, está
parada. Nada mudou. Assim como nada mudou em Brasília, onde os
personagens envolvidos nesse desvio continuam em seus cargos. E, agora,
subirão a seu derradeiro e consagrador ato final. Ao espetáculo:
I – O homem está cobrando
Para levar a cabo a obra do Pratagy, Zuleido precisava da influência, entre outros, de Renan. Segundo a PF, Zuleido comprara essa influência por meio de Everaldo Ferro, assessor de estrita confiança do senador. Os contatos eram invariavelmente discretos, como manda a boa etiqueta nesse tipo de negócio. Numa das conversas captadas pela PF, ainda em junho de 2006, a secretária de Zuleido lhe informa que é aniversário de Renan. “Mande um telegrama”, diz o empreiteiro. A secretária se mostra cautelosa: “Ah, mas ele não gosta muito, né? De notícia… Eu ia sugerir que o senhor ligasse para o Everaldo e transmitisse e tal”. Zuleido acata a sugestão da secretária e, minutos depois, liga para o assessor de Renan. O que segue é uma conversa de dois amigos. Diz Zuleido: “Disseram que vão resolver neste final de semana, até segunda, aquele negócio, tá?”. “Negócio” seria propina, segundo a PF. Everaldo não se contém: “Você é um irmão, rapaz!”. O empreiteiro encerra o telefonema amistosamente, sem se esquecer de Renan: “Tem de ter calma… Transmita os parabéns ao nosso amigo!”. Nas provas obtidas pela PF, constam registros de pagamentos a Everaldo, que continua despachando em Brasília, no gabinete de Renan.
Para levar a cabo a obra do Pratagy, Zuleido precisava da influência, entre outros, de Renan. Segundo a PF, Zuleido comprara essa influência por meio de Everaldo Ferro, assessor de estrita confiança do senador. Os contatos eram invariavelmente discretos, como manda a boa etiqueta nesse tipo de negócio. Numa das conversas captadas pela PF, ainda em junho de 2006, a secretária de Zuleido lhe informa que é aniversário de Renan. “Mande um telegrama”, diz o empreiteiro. A secretária se mostra cautelosa: “Ah, mas ele não gosta muito, né? De notícia… Eu ia sugerir que o senhor ligasse para o Everaldo e transmitisse e tal”. Zuleido acata a sugestão da secretária e, minutos depois, liga para o assessor de Renan. O que segue é uma conversa de dois amigos. Diz Zuleido: “Disseram que vão resolver neste final de semana, até segunda, aquele negócio, tá?”. “Negócio” seria propina, segundo a PF. Everaldo não se contém: “Você é um irmão, rapaz!”. O empreiteiro encerra o telefonema amistosamente, sem se esquecer de Renan: “Tem de ter calma… Transmita os parabéns ao nosso amigo!”. Nas provas obtidas pela PF, constam registros de pagamentos a Everaldo, que continua despachando em Brasília, no gabinete de Renan.
Florêncio chega à capital às 21h30.
Bruzzi e Tereza, a assessora de Zuleido, o aguardam no salão. Eram
observados por agentes da PF. Bruzzi está de calça jeans azul e camisa
branca social, com as mãos cruzadas para trás. As imagens produzidas
pela PF mostram o desembarque de Florêncio, carregando uma mala marrom.
Ele entrega um envelope pardo para Tereza, que, momentos depois, ainda
no saguão do aeroporto, vai ao encontro de Bruzzi – e joga o envelope
numa sacola de plástico que ele segurava.
II – O Pacotão do Rei Leão
Ainda no dia 9, a PF seguiu Zuleido do aeroporto de Salvador, onde um tesoureiro da Gautama lhe entregara R$ 145 mil, até Maceió. Segundo a polícia, Zuleido entregou o dinheiro a Adeílson Bezerra – secretário de Infraestrutura de Alagoas e presidente do diretório municipal do PMDB em Maceió, indicado para ambos os cargos por Renan – no escritório particular deste. Levava o pacote de dinheiro dentro de uma bolsa preta. Zuleido ficou cerca de 40 minutos no escritório. Voltou a Salvador na mesma noite. No dia seguinte, às 10h45, Adeílson diz a um amigo: “Nós tamos descendo lá para a casa do Renan para conversar com ele rápido, porque ele vai viajar, vai para a fazenda. Aí eu vou conversar com ele, dar um pacotão do Rei Leão”. Os delegados da PF suspeitam que o tal pacotão contivesse os R$ 145 mil entregues por Zuleido a Adeílson, descontada a comissão retida pelo secretário. Dias depois, Adeílson, também preso na operação, foi a Brasília se encontrar com Renan. Enquanto isso, no dia 14, dois integrantes do esquema mostram-se preocupados com a liberação do dinheiro do governo. Nas gravações, eles confirmam que Adeílson virou secretário do governo de Alagoas “porque Renan o colocou lá”. E, para garantir a liberação do dinheiro de emendas, combinam falar com Everaldo Ferro.No dia 10 de abril, um dos operadores do esquema, que não é identificado pela PF, diz a Deníson Tenório, que trabalhava com o secretário Adeílson, que conversara com Renan – e que os recursos para as obras saíram “por interferência” do senador. “Obra para sair no retrato, né?”, diz Deníson. No dia 11 de abril, Zuleido teve uma reunião com Bruzzi. Dois dias depois, Bruzzi mostra seu empenho: diz a Zuleido que foi ao Ministério da Integração tentar liberar o dinheiro da obra – mas o governo de Alagoas estava com uma pendência junto à Pasta. Semanas depois, no dia 25 de abril, Zuleido encontra-se com Bruzzi, que lhe dá as boas-novas: conseguiu liberar a restrição que constava no Ministério da Integração. O dinheiro do governo federal, oxigênio financeiro da turma, poderia voltar a cair nas contas da empreiteira de Zuleido.
Ainda no dia 9, a PF seguiu Zuleido do aeroporto de Salvador, onde um tesoureiro da Gautama lhe entregara R$ 145 mil, até Maceió. Segundo a polícia, Zuleido entregou o dinheiro a Adeílson Bezerra – secretário de Infraestrutura de Alagoas e presidente do diretório municipal do PMDB em Maceió, indicado para ambos os cargos por Renan – no escritório particular deste. Levava o pacote de dinheiro dentro de uma bolsa preta. Zuleido ficou cerca de 40 minutos no escritório. Voltou a Salvador na mesma noite. No dia seguinte, às 10h45, Adeílson diz a um amigo: “Nós tamos descendo lá para a casa do Renan para conversar com ele rápido, porque ele vai viajar, vai para a fazenda. Aí eu vou conversar com ele, dar um pacotão do Rei Leão”. Os delegados da PF suspeitam que o tal pacotão contivesse os R$ 145 mil entregues por Zuleido a Adeílson, descontada a comissão retida pelo secretário. Dias depois, Adeílson, também preso na operação, foi a Brasília se encontrar com Renan. Enquanto isso, no dia 14, dois integrantes do esquema mostram-se preocupados com a liberação do dinheiro do governo. Nas gravações, eles confirmam que Adeílson virou secretário do governo de Alagoas “porque Renan o colocou lá”. E, para garantir a liberação do dinheiro de emendas, combinam falar com Everaldo Ferro.No dia 10 de abril, um dos operadores do esquema, que não é identificado pela PF, diz a Deníson Tenório, que trabalhava com o secretário Adeílson, que conversara com Renan – e que os recursos para as obras saíram “por interferência” do senador. “Obra para sair no retrato, né?”, diz Deníson. No dia 11 de abril, Zuleido teve uma reunião com Bruzzi. Dois dias depois, Bruzzi mostra seu empenho: diz a Zuleido que foi ao Ministério da Integração tentar liberar o dinheiro da obra – mas o governo de Alagoas estava com uma pendência junto à Pasta. Semanas depois, no dia 25 de abril, Zuleido encontra-se com Bruzzi, que lhe dá as boas-novas: conseguiu liberar a restrição que constava no Ministério da Integração. O dinheiro do governo federal, oxigênio financeiro da turma, poderia voltar a cair nas contas da empreiteira de Zuleido.
Em Brasília, é difícil saber quais políticos têm poder real sobre a liberação de dinheiro
Entre os dias 13 e 16 de abril, Adeílson
esteve hospedado num hotel em Brasília, a negócios. Numa batida na casa
de Adeílson, a PF encontrou o extrato da conta dessa estadia. Quem
pagara a conta? Cláudio Gontijo, amigo de Renan e lobista da construtora
Mendes Júnior – que também tinha contrato com o governo de Alagoas,
firmado com burocratas apadrinhados por Renan, e pagava contas pessoais
do senador. No dia 1o de maio, Adeílson, segundo este confidenciou a
Zuleido num telefonema, estava embarcando de Maceió rumo a Brasília, num
avião particular, ao lado de Renan.
Horas antes, Adeílson avisara ao governador de Alagoas, Teotônio
Vilela, que iria conversar com o senador: “Tô lhe ligando porque eu
quero a sua permissão para (ir) a Brasília hoje com Renan”. “Tudo bem”,
diz o governador.
AQUI TEM DONO:
III – O jardim de inverno do PMDB
Bruzzi não estava tão por fora. No dia seguinte, a PF apreendeu, na sede da Gautama em Brasília, cópias de recibos de depósito em nome de Bruzzi. Ele aparece como beneficiário de dois depósitos que somam R$ 16 mil, realizados em agências de dois bancos diferentes. Existe ainda um terceiro depósito no valor de R$ 34 mil, em que a titular da conta é a mulher de Bruzzi, Maria Lúcia. As operações bancárias são de outubro de 2003. Bruzzi era um operador fundamental no esquema de Zuleido – e de quem quer que se disponha a obter recursos de emendas parlamentares por meio do PMDB. Ele trabalha numa sala minúscula, dentro do conjunto ocupado pela liderança do PMDB na Câmara dos Deputados. Fica atrás do jardim de inverno que orna o Salão Verde, a poucos passos do plenário. Economista de 64 anos, Bruzzi tem um espaço físico muito menor que seu poder. Pelas mãos de Bruzzi passam sugestões de gastos do PMDB que ultrapassam R$ 1 bilhão por ano. Ele é paparicado pelos deputados porque ajuda a emplacar emendas para dirigir parte desses recursos públicos a suas regiões. Mas Bruzzi não cuida apenas disso. Um deputado quer ser membro de determinada comissão? Chame o Bruzzi. Notícias sobre vagas em cargos comissionados na Esplanada? Bruzzi terá a resposta. Empresários ou lobistas querem conversar? É com Bruzzi. Junto com a confiança dos chefes, Bruzzi conquistou o poder de indicar a eles os apaniguados políticos adequados para ocupar determinados cargos.
Bruzzi não estava tão por fora. No dia seguinte, a PF apreendeu, na sede da Gautama em Brasília, cópias de recibos de depósito em nome de Bruzzi. Ele aparece como beneficiário de dois depósitos que somam R$ 16 mil, realizados em agências de dois bancos diferentes. Existe ainda um terceiro depósito no valor de R$ 34 mil, em que a titular da conta é a mulher de Bruzzi, Maria Lúcia. As operações bancárias são de outubro de 2003. Bruzzi era um operador fundamental no esquema de Zuleido – e de quem quer que se disponha a obter recursos de emendas parlamentares por meio do PMDB. Ele trabalha numa sala minúscula, dentro do conjunto ocupado pela liderança do PMDB na Câmara dos Deputados. Fica atrás do jardim de inverno que orna o Salão Verde, a poucos passos do plenário. Economista de 64 anos, Bruzzi tem um espaço físico muito menor que seu poder. Pelas mãos de Bruzzi passam sugestões de gastos do PMDB que ultrapassam R$ 1 bilhão por ano. Ele é paparicado pelos deputados porque ajuda a emplacar emendas para dirigir parte desses recursos públicos a suas regiões. Mas Bruzzi não cuida apenas disso. Um deputado quer ser membro de determinada comissão? Chame o Bruzzi. Notícias sobre vagas em cargos comissionados na Esplanada? Bruzzi terá a resposta. Empresários ou lobistas querem conversar? É com Bruzzi. Junto com a confiança dos chefes, Bruzzi conquistou o poder de indicar a eles os apaniguados políticos adequados para ocupar determinados cargos.
Há dois anos, os contatos de Bruzzi e
suas sugestões para o Orçamento fizeram parte de outro escândalo. A
Operação Voucher, da Polícia Federal, prendeu 35 pessoas suspeitas de
participar de um esquema de desvio de R$ 4 milhões em recursos públicos.
Parlamentares dirigiam emendas para o Ministério do Turismo, mas parte
do dinheiro era encaminhada para empresas e entidades ligadas aos
políticos e a funcionários do ministério. O principal algemado na
ocasião foi o secretário executivo Frederico Silva Costa, o número dois
na hierarquia da Pasta na ocasião. E quem colocara Fred, como era
conhecido, num cargo tão bom? O líder do PMDB na Câmara, Henrique
Eduardo Alves. Por sugestão de quem? De seu assessor Francisco Bruzzi. E
de onde Fred e Bruzzi se conheciam? De tanto tratar de emendas com
Fred, quando este ocupava outro cargo no Turismo durante o governo Lula,
Bruzzi achou que promovê-lo a secretário executivo no governo Dilma
seria uma mão na roda para anteder aos anseios político-financeiros do
PMDB. “Ele (Frederico) sempre atendeu com eficiência às
demandas do PMDB e às solicitações da liderança”, afirma Bruzzi. Bruzzi
convenceu o deputado Henrique Eduardo Alves a bancar Fred. Em troca,
Fred prestava contas a Bruzzi do que se passava no ministério. Apesar de
ser o número dois da Pasta e ostentar uma sala grandiosa, quando Bruzzi
o chamava, Fred ia até a apertada sala de Bruzzi. A confiança de
Henrique Eduardo Alves em Bruzzi é absoluta. É certo que, com a ascensão
de Henrique à presidência da Câmara, o poder de Bruzzi crescerá junto.
As filas vão aumentar, a agenda vai ficar lotada e a salinha será
insuficiente. Ah, quantos Freds eles não poderão fazer?
Procurado por ÉPOCA, Bruzzi disse não se
lembrar a que se referem os depósitos. “Não sei do que se trata.”
Bruzzi afirmou que era amigo de Zuleido Veras, o empreiteiro dono da
construtora Gautama, pivô do escândalo. Mas relutou em contar detalhes
sobre a amizade. Bruzzi disse que ajudou o empresário. “Naquela época,
eu sugeri algumas ideias. Posso ter ajudado em orientações técnicas do
que fazer aqui e ali. Eu posso ter feito alguma coisa em termos de
captação de recursos externos, mas não me recordo exatamente o quê. É
muito tempo atrás. Mas foi só isso. Foi um determinado serviço, em
determinada época. Acabou. Nunca mais.” Procurado por ÉPOCA, Renan
Calheiros não quis conversa: “Obrigado pela cobertura. Obrigado por
tudo. Obrigado”. O deputado Henrique Eduardo Alves também não quis se
pronunciar.
Por que, diante de provas tão
contundentes, a PF não pediu investigação específica à Justiça em
relação aos próceres do PMDB? Em Brasília, a resposta apenas se
sussurra. Mas o diretor de Inteligência da PF no momento das
investigações, delegado Renato Porciúncula, a quem os delegados do caso
remetiam as provas, tinha parentes próximos com cargos de confiança no
Senado. A mulher e o enteado de Renato Porciúncula eram funcionários
comissionados do Senado. A mulher estava na presidência da Casa desde
2004, quando José Sarney era o presidente, e o enteado fora nomeado para
um setor administrativo em agosto de 2006, já com Renan na presidência.
Procurado por ÉPOCA, o delegado Renato Porciúncula afirmou desconhecer
qualquer interferência de políticos no andamento das investigações da
Operação Navalha. Ele afirmou ainda não se recordar das pessoas
mencionadas pelo repórter. “Só os delegados da investigação tinham o
domínio dos detalhes da apuração”, afirmou. Aplausos, por favor.